Entrevista com Eduardo Ferreira

O Circuito Internacional de Vila Real é um dos maiores eventos desportivos e o Clube Automóvel de Vila Real é uma das peças fudamentais na organização desta prova de caráter mundial, mais uma em que este clube está orgulhosamente inserida. Eduardo Ferreira é um dos homens com mais responsábilidade neste fim de semana, sendo director de prova, uma função que já desempenhou várias vezes e que conhece como ninguém:

Falando em nome do CAVR, Eduardo Ferreira, afirmou dias antes da prova, estar tudo a postos :

– O que nós podemos dizer que está pronto. A máquina do clube a trabalhar,  focando-se na parte mais operacional, como na mais técnica. Já fizemos contactos com os outros clubes que nos vem ajudar no sentido de colmatar as necessidades inerentes de  um evento com uma envergadura enorme. Estamos a falar de um perímetro que muito grande, de um circuito citadino com tudo o que isso acarreta. De qualquer forma estamos a falar de um perímetro que tem 34 postos de sinalização, em cada posto nós queremos ter sempre 3 ou 4 fiscais de pistas. Cada um desses tem aquele pessoal todo de bombeiros. Cada posto tem que ter um bombeiro obrigatoriamente. O regulmaneto obriga a isso. Por isso estamos a falar sempre numa afetação directa à pista, ao circuito. Estamos a falar de perto de 300 pessoas. O clube já deitou mão a quem de direito para nos ajudar a fazer isto também. Vamos trabalhar dentro dos mesmos moldes dos outros anos. A cada edição vamos tentando melhorar cada vez mais e é por isso que temos feito acções de formação e preparado da melhor maneira possível os nossos colaboradores. Estamos a falar de voluntários com uma grande responsabilidade e por isso temos de fazer todos os esforços para que cada um possa cumprir a sua tarefa o melhor possível.

 

– E como é a responsabilidade de orquestrar um evento desta envergadura, a nível pessoal?

Estou no Clube Automóvel de Vila Real desde os 12 anos. São 36 anos nesta casa onde sou muito acarinhado e onde fiz o meu percurso até chegar a esta posição. A responsabilidade é enorme, porque quem está consciente de um evento destes não pode fazer as coisas de ânimo leve. Eu só descanso depois das corridas, depois da última prova, se  tudo correr bem. Felizmente desde que eu tomei conta da parte da segurança e agora ultimamente da direção de prova, tem tudo corrido pelo melhor. Há falhas como é normal mas procuramos minimizá-las sempre, com um planeamento detalhado. Quando as corridas começam já há muito trabalho feito antes. Sabemos da importância deste evento e do investimento que é feito para trazer uma prova deste calibre e como tal queremos assegurar que fizemos tudo que estava ao nosso alcance para que tudo corra pelo melhor dignificando assim o nome do clube e da cidade. O Clube Automóvel de Vila Real, procura sempre corresponder à expectativa. Termos a noção de que temos algumas debilidades. Temos alguns pontos em que poderíamos estar ainda melhores, mas são limitações inerentes à vida de um clube com estas caracteristicas e que vamos limando com  o passar do tempo. Mas temos correspondido face as grandes exigências que os campeonatos onde estamos inseridos, nos colocam.Nós não precisamos que nos estejam a “picar” para atingirmos as coisas, porque queremos fazer sempre o melhor possível independentemente do que nos é exigido.

 

Concorda que  facto do clube levar o nome desta cidade deve ser mais um motivo de orgulho para todos os vilarealenses?

Creio que é um orgulho muito grande. Não nos podemos esquecer de que 1991 a 2007 não houve corridas em Vila Real, e o clube automóvel de Vila Real não parou de fazer as corridas. Nós fizemos provas sempre a levar o nome da cidade o mais longe possível. E é este espírito que vai singrando aqui dentro do clube. Temos dificuldades e os tempos agora são outros. As exigências também são muitas, já não se faz segurança com uma corda nem com fardos de palha. Mas de qualquer forma procuramos desde 2007 até hoje em fazer um bom trabalho e creio que temos tido sucesso.

 

– Estando cá há tanto tempo como vê a evolução tanto do clube como do circuito e da própria visão da cidade das corridas?

– Isso é ambíguo. Podemos dizer agora que o circuito é muito mais seguro, de facto. Eu nem sei se conseguimos estabelecer um paralelo. Estamos a falar de um circuito com 4 quilómetros e tal. E reportando até 1991, o último ano de um circuito de 7 kms onde não haviam câmaras de televisão e os nossos olhos eram os nossos fiscais de pista. Mas mesmo hoje, com 100% de cobertura em todo o traçado, os olhos continuam a ser fiscais de pista porque as câmaras nós temo-las para termos uma decisão na torre de controlo mais célere e mais precisa. Procuramos essa rapidez na decisão porque a segurança é ponto fundamental do Clube Automóvel de Vila Real. Para nós sempre foi a segurança. Independentemente do que possam dizer sobre o que aconteceu nos anos 90. Mas, de qualquer forma o nosso sentido é sempre melhorar a segurança. A segurança é o ponto número 1. Que ninguém duvide disso. Pode haver um azar mas nós procuramos ter tudo sobre controlo. E sabemos que isso é impossível. Mas há um factor muito importante – o público. O público e a cidade têm que nos ajudar, porque sem isso não adiantam os nossos esforços.  E o desporto motorizado é, para mim, dos desportos mais bonitos, mas é também dos mais perigosos. E disso não há dúvidas.

– Em relação ao aparato da segurança deste ano, há alguma melhoria e/ou alguma mudança em relação ao passado?

A nível de segurança nós tentamos sempre melhorar. Mas falando de uma segurança passiva, ou seja, dos railes, das redes, das escapatórias e das chicanes, tem sido melhorado de ano para ano. Desde 2007 até hoje fomos dotando cada vez mais o circuito com esta segurança.

Depois temos a segurança ativa, onde estamos a falar de 17 equipas médicas no nosso circuito alocadas aos 3 dias do evento. Essas equipas médicas estão distribuídas de uma forma pensada e planeada. Nós, enquanto organizadores temos a obrigação de potenciar ao máximo a eficácia. Em relação ao traçado temos, para os pilotos, um posto médico devidamente equipado e apetrechado com toda a logística exigida e os meios humanos, ou seja, médicos, enfermeiros e socorristas permanentes. Depois temos 4 equipas de intervenção médica para a pista, uma aqui na torre, um na rotunda do Boque, na rotunda de Mateus e outra na Auracária. Carros médicos todos com a sua guarnição e o equipamento próprio para interferirem nas situações que forem necessárias. Mas não é só isto. Nós temos um circuito citadino e procuramos que as pessoas que residem no perímetro tenham mobilidade. Logicamente que é muito reduzida, mas as pessoas podem sair de casa sem estarem reféns do circuito. Temos outras equipas médicas, denominadas de equipas médicas apeadas e postos médicos que estão nesses locais, como por exemplo, na zona interior do Boque onde temos 1 posto médico para a população para as pequenas coisas. Temos outro posto médico da Cruz Vermelha também para essas coisas, como indisposições. Procuramos salvaguardar todas estas situações. Temos helicóptero de prevenção, temos várias ambulâncias, coisa que as duas corporações de Bombeiros de Vila Real nos permitem. Sem eles não conseguiríamos porque entram diretamente neste plano de segurança, sendo nossos parceiros há muitos anos. Procuramos que todo o circuito, tanto o traçado como o perímetro à volta tenham uma resposta eficaz em caso de necessidade.

 

– Comparando este circuito com o antigo, qual é que gosta mais?

– Como organizador, claramente o pequeno. Até um autódromo eu gostava mais. Eu sei que é um contracenso o que estou a dizer, falar de circuitos e autódromos mas como organizador, um autódromo facilita muito a tarefa. É basicamente abrir a porta e está feito. Mas dá-me um gozo enorme trabalhar num citadino principalmente na minha cidade, mas estou consciente de que nunca estou descansado. Sou dos que sofre mais com isto. O circuito antigo logicamente que tinha um carisma e uma dinâmica incrível. E não digo que seja impossível reeditar mas é muito mais difícil.  Pessoalmente gostava muito do circuito antigo, era único. Eram 7 quilómetros em que desde a antiga reta, que hoje chamamos de Boxes, até à ponte da Timpeira, era sempre a fundo.  Os pilotos tinham que ser loucos. Apesar de não ser assim tão velho, também sou do tempo antes da chicane da Estação, a qual tenho um certo carinho porque foi o meu posto durante 16 anos. O primeiro ano que fui para lá foi o último sem chicane. Mas com os acidentes, surgiu a necessidade de fazer a chicane para reduzir a velocidade.  E reportando isso para hoje, aconteceu o mesmo com a chicane da Araucária. Não nos podemos esquecer que estamos a falar de uma parte do circuito onde em 91 tivemos a tragédia.  Temos que nos lembrar também que como é um circuito citadino, temos sempre exitem zonas habitacionais com muita gente. Para que os carros não cheguem a uma velocidade absurda foi colocada a chicane alí. Porque se chegassem em altas velocidades, mesmo com os meios de segurança, se houvesse um contacto lateral entre dois, muito facilmente passariam para o outro lado.

 

– Em relação à prova WTCR em si, temos 27 carros…

– A prova vai ser um desafio. Nós já tivemos grelhas com cerca de 40 e tal carros. E quando estamos a falar do WTCR oferece-nos uma certa segurança porque estamos a falar de pilotos que já têm um traquejo muito maior. As próprias máquinas estão melhor apetrechadas, equipadas e equilibradas para fazer uma corrida.  Estou convencido que o WTCR vai ser uma mais valia em relação ao WTCC.  Pelo menos neste ano já se está a notar a nível de pilotos inscritos. 27 não é a mesma coisa que termos 15 ou 16. A nível de dinâmica e logística a coisa não é mesma. Mas toda a gente que está a trabalhar no circuito já estava alertado para isso. E há um trabalho enorme por parte da organização para que tudo corra pelo melhor em todos os aspectos. Ninguém é mais crítico de nós mesmos.

– Se tivesses que dizer a alguém que não percebe nada de corridas o que é ser diretor de prova, como é que explicavas?

– Para quem não percebe nada de corridas não é fácil. Mas fazendo uma analogia ao futebol, porque as pessoas percebem sempre melhor, é andar de chuteiras de pitons de alumínio em cima de ovos. Basta um mínimo deslize e parte tudo. É uma linha muito ténue entre o correr bem e o correr mal. Seja no que for, na parte desportiva ou na parte da segurança. Procuramos e temos conseguido com que tudo corra bem.

 

Tendo em conta o número de anos que está nesta casa, se tivesse que definir o Clube Automóvel de Vila Real, qual seria a palavra?

– O Clube Automóvel é uma casa, é um grupo de grandes amigos com muitos dissabores à mistura.  As pessoas que não pensem que é um mar de rosas. E falando a título pessoal, posso dizer que dei a minha vida ao clube! E o clube deu-me muita coisa a mim. Proporcionou-me coisas que se calhar não há dinheiro que pague também. Eu tive oportunidades únicas.   Mas levou muito tempo, pelo menos 30 anos. O clube tem sido muito isso – uma casa e muitos amigos. E se gosto de trabalhar com pessoas que conheço há muitos anos, também gosto muito de trabalhar com gente nova. Esses é que nos dão força. E não há dinheiro que pague isso. Conseguir mobilizar estas pessoas e que elas fiquem com o sentido do Clube. O meu esforço sempre foi tratar bem as pessoas e fazer com que se sentissem acarinhadas. Mas tanta gente é tão pouca. Se for para preencher todos os postos, as pessoas já não chegam. É muita gente mas não é nada. E é muito disto!

 

O 49ª Circuito Internacional de Vila Real já começou e toda a estrutura do CAVR está empenhada em fazer o costume…o melhor trabalho possível para que corra tudo pelo melhor. A exigência é máxima e a vontade de fazer sempre melhor também. O CAVR deseja que as corridas sejam uma grande festa e que o nome de Vila Real consiga novamente chegar aos quatro cantos do mundo.